A Festa do Divino de Mogi das Cruzes inaugura os registros etnográficos deste Acervo. As primeiras gravações datam de 1972 – são três fitas gravadas durante a festa. A primeira observação desta festa motivou novas idas a campo para gravar entrevista com Seu Conrado, mestre do Batalhão de Moçambique, e modas de viola, cantadas por integrantes deste grupo, antes da Festa do Divino de 1974. O convívio com integrantes do Batalhão de Moçambique de Seu Conrado nos levou a conhecer outras formas de expressão de que participavam ao longo do ano, como a Dança de São Gonçalo, a Dança de Santa Cruz, realizadas em pagamento de promessas.

Como se pode observar no Catálogo de Registros Sonoros, o conjunto das fitas 1 a 49 contém registros feitos em Mogi das Cruzes, bairros rurais, distritos e cidades vizinhas, de 1972 a 1975.

Em 1976, A Festa do Divino de Mogi das Cruzes é registrada desde os preparativos, dias antes da festa. Em 1977, foram gravadas as fitas 97 a 100, em 1978, só uma parte do Batalhão de Moçambique e da Marujada.

Como são muitas fitas, para amostragem, foi feita uma coletânea em 2 CDs contendo trechos  selecionados dos registros feitos entre 1972 e 1978 em Mogi das Cruzes. As vozes dos Foliões do Divino atravessam os CDs, como os cantos de Moçambique vão e voltam, criando recorrências e por fim cantos de congada, terminando com a Marujada de Seu José Isidoro e Dico, em que são fortes os tambores e o canto. Foram inseridos, em três faixas, os Foliões da Festa do Divino de Piracicaba para contraste. A última faixa, panorâmica, traz fragmentos de vários registros selecionados e de entrevistas, com o som da Marujada ao fundo.


Saiba mais acessando o texto multimídia:

Cadernetas do Divino


Catálogo de Registros Sonoros

Amostras

Coletânea:


Galeria de fotos:

A festa dos santos reis… do rádio: um exemplo de relato crítico

Maria Ignez Novais Ayala e Marcos Ayala

A folia de reis é uma dança dramática que expressa a religiosidade popular de comunidades tradicionais brasileiras. Em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro são muitos os grupos existentes em vários municípios.

Tivemos a oportunidade de participar de três festas e de assistir a apresentações de diferentes grupos em festivais e mostras de folclore ou cultura popular nos anos 1970 e 1980, que ficaram em nossa memória e acervo. Vamos exemplificar com o que vivenciamos nas festas, sendo que duas ocorreram em bairros de São Paulo e outra em no sítio de uma dupla sertaneja que tinha um programa no rádio.

Vou escolher para comentar, aqui, a que ocorreu no sítio de Arujá, em 09/01/1976, de que dispomos de duas fitas gravadas e digitalizadas (fitas 053 e 054 do Catálogo), pois, como verão, tem características diferentes das promovidas devido a promessas em comunidades tradicionais. O relato desta festa foi escrito em 1976, logo depois da observação direta e se manteve inédito. É deliberada a ironia em alguns momentos para destacar talvez a condição mais popularesca do que popular deste contexto. Além do texto datilografado, encontramos um envelope com algumas anotações desenvolvidas neste texto. As fotos foram feitas em slide, que sofreram a ação do tempo, com alteração de cor e fungos, mas foram recuperadas através de digitalização de Maria Ignez Novais Ayala recente.

A FESTA DOS SANTOS REIS… DO RÁDIO

Marineis Novais[1] e Marcos Ayala

A Festa dos Santos Reis vem acontecendo há seis anos, na zona rural do município de Arujá, SP, numa capela erguida em louvor aos Santos Reis. Esta festa é parte de uma promessa, feita pela dupla sertaneja “Moreno e Moreninho” − ‘’A dupla mais ouvida do Brasil”−, e neste ano se realizou no domingo seguinte ao Dia de Reis.

Aruja04

No local, enfeitado com arcos de bambu e uma infinidade de bandeiras do Brasil (substituindo as tradicionais bandeirinhas de papel), encontravam-se o palanque coberto, barracas de sanduiches, de bebidas e de diversões (o que, sem dúvida, assegurou um grande lucro aos organizadores, uma vez que havia lá mais de mil pessoas).

O público provinha de vários locais. Moradores da Serra do Itapeti, Mogi das Cruzes, Biritiba Mirim, Biritiba Ussú, Guarulhos e São Paulo – São Miguel Paulista, Ipiranga, Cangaíba etc.

Aruja09

Aproveitando o acontecimento, houve um afluxo de ambulantes vendendo suspiros, maçãs-do-amor, fatias de abacaxi, bolos, churrasquinhos-de-gato, balões de gás, discos, fitas cassete, agulhas, retroses e botões e quinquilharias de gêneros diversos. Só faltavam, mesmo, os carnês do Sílvio Santos. Não faltou nem o realejo, embora alterado: um gravador embutido em caixa de realejo apresentando, como diriam alguns, “uma perfeita fusão do moderno e do tradicional”. Modelo semelhante pode ser encontrado nas imediações da Estação da Luz, em São Paulo.

Havia vários gravadores, só que nesta festa as gravações não eram feitas por pessoas estranhas à manifestação, mas por componentes do público e integrantes das Folias de Reis.

Aruja11

Numa época em que se fala tanto na morte da cultura popular, na substituição de elementos “autênticos” por outros vindos de uma cultura de massa, surgem os gravadores e fitas nas mãos de irmãos de dançadores e de violeiros ou de simples espectadores. Vale dizer que não foi esta a primeira vez que tivemos a oportunidade de observar isto. Está acontecendo em muitos lugares, relacionado a diversas manifestações da cultura popular.

A utilização destes equipamentos é importante em vários aspectos. Possibilita a memorização da sequência inteira da manifestação pelas gerações mais novas, assegurando sua continuidade. Além de preservação é uma forma de lazer, pois estas gravações são constantemente ouvidas pelos integrantes do grupo, familiares, amigos e conhecidos.

Sabe-se que a cultura de massa é veiculada por fitas, discos, rádio, TV, etc. e que procura impor seus valores ou então veicula a cultura popular, na maioria das vezes, alterada através desses meios de comunicação. Se a TV, o rádio e o disco apresentam um produto já feito, acabado, as fitas para gravador nem sempre, pois existem as fitas virgens e nelas se grava aquilo que interessa a seu proprietário. Assim, quando o gravador está na mão dos responsáveis pela cultura popular, serve para manter esta cultura da maneira que ela se apresenta, podendo inclusive se opor à indústria cultural.

Na verdade, eram pouquíssimas as pessoas “de fora”: dois fotógrafos, que colhiam fotos para capas de discos sertanejos e repórteres da Rede Globo, filmando apenas alguns minutos para noticiário da emissora. Compreende-se a rápida passagem da Rede Globo pela festa,  quando se lembra que a dupla tem programa na Rádio Nacional.

Além de Moreno e Moreninho, outras duplas da Nacional e outras emissoras se apresentaram. Na segunda parte da festa, tendo como grande atração “o sanfoneiro do IV Centenário”, Mário Zan. A primeira parte foi reservada às folias e a uma fanfarra, havendo um leilão antes do show de moda de viola. Dada a grande quantidade de duplas, em certo momento não se sabia mais qual a parte mais importante da festa: se as folias, que estão diretamente ligadas aos santos, ou os péssimos violeiros, digo, péssimos violoneiros, já que não havia nenhuma viola, apenas violões adaptados Inclusive os de Moreno e Moreninho). Sem contar a microfonia, que colaborou para a irritação do público.

Se os grupos de foliões fossem considerados pelos organizadores da festa mais importantes que as duplas, o show não teria se arrastado enquanto a Folia de Nova Bonsucesso, de Guarulhos, esperava das 15:30 às 18:00 horas, sem poder dançar na capela, pois, para isso, dependia do consentimento dos “devotos” Moreno e Moreninho.

Tudo isto fez com que a crítica do público, até então contida, viesse à tona. Os foliões só conseguiram permissão para dançar após muitas reclamações, por parte do público e do irmão do responsável pela Folia de Nova Bonsucesso, junto aos organizadores.

Os componentes da folia já estavam exaustos após a longa espera, em pé, sob o sol forte, principalmente os quatro palhaços com o rosto coberto por máscaras de pele de lobo e de carneiro.

Resignados a ir embora sem ter cumprido sua obrigação, os foliões entraram na capela para reverenciar os santos, pois como a dança é uma manifestação popular de religião, quando não se pode dançar, ao menos uma breve oração deve ser feita. Aborrecidos, voltariam para casa, perdendo o dinheiro gasto com o transporte, já que os organizadores da festa não dão auxílio algum aos que ali se apresentam.

Dentro da capela, o público pedia que o grupo dançasse mesmo sem permissão. Uma das manifestações mais decisivas por parte do público foi a do mestre José Alves, proveniente de Mato Grosso, que atualmente se encontra afastado de sua função, pois ainda não conseguiu organizar um grupo em São Paulo. Conversando com o responsável pela Folia de Reis de Nova Bonsucesso, o mestre José Alves insistia:

“Dá ao menos uma cantada. Depois, despede do altar e vai embora. Dá uma cantada e pronto, tio… Ao menos um verso e depois nós vamos embora.”

Momentos depois, desabafou:

“Essa porcariada que a gente tá com o saco cheio de ver, desculpe, mas essa modaiada besta aí…”

Quando alguém se referiu à religião, mestre José Alves, desencantado com a demonstração de “devoção” dos organizadores, respondeu: “A religião, nada… A religião deles é dinheiro!”

Embora para o público as intenções da dupla sertaneja estivessem bastante claras, a filha de Moreno, dentro da capela, tentava provar o contrário, distribuindo justificações e… chaveiros. Segundo suas declarações, a festa é organizada pela dupla Moreno e Moreninho  e seus familiares, sendo divulgada através do programa da dupla na Rádio Nacional.

A reunião de várias folias para esta festa não é tão difícil como em qualquer festa popular, pois os próprios grupos tomam conhecimento pelo programa de rádio e se apresentam dispostos a colaborar com a promessa, Mas a filha de Moreno queria a todo custo mostrar que tudo é difícil:

Se vão ajudar ou não vão ajudar, fica na incerteza. Porque, se tem gente p’ra ajudar, se faz festa. Se não tem, sai como der, não é verdade? Então se vocês colaborassem de chegar mais cedo, “cês” já tinham trabalhado.(…) Tem um ano “procês” pensar, porque nós pensamos, vocês têm que ajudar também. (…) Se não houver colaboração, a gente não aguenta, tá bom?

Resumindo: depois de muita espera e insistência, a folia conseguiu se apresentar e o público pediu bis.

Os fatos mostraram que o público estava lá para ver as folias e não para assistir extensão de programa de rádio. Ficou claro que, para o público, as folias não se encontram no mesmo plano que as modas de viola, pois, enquanto as modas de viola estão mais ligadas à diversão, as folias estão diretamente relacionadas com a devoção, sendo as manifestações mais importantes numa desta de Santos Reis.

Mas se os grupos de dança são mais importantes para o público, não parece ser esta a visão dos “cumpridores daquela promessa” que sequer estavam presentes na apresentação do grupo de Guarulhos.

Apesar de seu sotaque caipira, Moreno e Moreninho parecem desconhecer o princípio religioso que há nas manifestações culturais populares, o que leva a duvidar de que sejam eles reais representantes desta cultura.

São Paulo, 1976

[1] Como Maria Ignez Moura Novais assinava alguns textos naquela época.


Galeria de imagens:

 


 Seleção de áudios:

Sobre o Mestre José Alves:

Sobre o uso de máscaras na Igreja:

“É o primeiro ano que você vem?” Folia de Nova Bonsucesso entra na capela

No caminho do Oriente encontrou os Três Reis Magos cada um como seu presente:

Continuação da Folia de Nova Bonsucesso:

Santos Reis vem visitar:

Despedida e Vivas:

A porta do Céu abriu:

Agradece a promessa/O Santos Reis ta despedindo/Vai deixar recordação

 

O batuque, também conhecido como tambu ou samba de umbigada, e o samba lenço, aqui apresentados, são formas de expressão afro-brasileiras. Na época em que foram feitos os registros (1976-1983), eles ocorriam em poucas comunidades negras de cidades do estado de São Paulo: região de Piracicaba, Sorocaba e Lençóis Paulista, em cidades próximas da capital (Mauá, Barueri) e em bairros paulistanos no entorno da Freguesia do Ó (Vila das Palmeiras, Vila Carolina) e do Bairro da Casa Verde (veja a galeria de fotos). Convivemos mais com os batuqueir(os)as e sambador(es)as que mantinham contato com as quatro irmãs, Guilhermina, Aparecida, Albina e Chiquinha (ver fotos abaixo), verdadeiras matriarcas negras, detentoras de saberes e fazeres do catolicismo popular, batuque e samba lenço, residentes na Vila das Palmeiras e bairros próximos à Freguesia do Ó, São Paulo, capital. Com elas viajamos para Mauá, para Olímpia e conhecemos Seu João, Dona Nenê, Isaura, Dona Sebastiana, José Mauro, tocador do bumbo 7 léguas, que morreu muito jovem, mas tornou-se, desde cedo, uma referência do samba lenço de Mauá.

Dona Guilhermina, a mais idosa das quatro fazia anualmente uma festa em sua casa no dia treze de maio. Era uma Festa de São Benedito com procissão pelas ruas vizinhas, terço cantado e samba (batuque e samba lenço). Antes, segundo ela, fazia-se uma espécie de teatro de rua em que se encenava a libertação dos escravos. Quando a conhecemos, a festa consistia na procissão, terço cantado e, eventualmente o samba (batuque e samba lenço).

Os registros aqui apresentados mantêm a estrutura das festas em que ocorreram, isto é, antes da dança coletiva, o acompanhamento de procissões, terço com rezas cantadas, vivas… para depois começar o samba. Nos intervalos, ora estão ensaiando novos sambas, ora cantando modas do batuque.

De costas Dona Guilhermina [clique para ampliar e fechas as imagens]

batuque cvF1000001

No centro Dona Albina e a direita Dona Aparecida

batuque cvF1000006


Catálogo da Coleção

 Amostras de registros retirados de:

1) Reza cantada e batuque festa  de seu Ageu, Barueri, SP, 21 maio de 1977 (fita 059)

2) Reza cantada e Batuque após Dança de Santa Cruz. Comunidade negra do Cafundó. Sorocaba, 13 maio de 1978 (fita 063)

3) Reza cantada e samba lenço. Festa de São João na casa de Dona Sebastiana. Mauá, 24 jun. 1978 (fita 66 e 67)

Amostras:

“Samba-lenço-Faz muito tempo que esse bumbo não trabaia-FITA-066-A”

Porteira nova tem arenga no fechar
Porteira nova tem arenga no fechar
Tourinho novo quando berra quer mamar
Tourinho novo quando berra quer mamar

Faz muito tempo que esse bumbo não trabaia
Faz muito tempo que esse bumbo não trabaia
Bate co’o bumbo como as muié faz co’as saia
Bate co’o bumbo como as muié faz co’as saia


Galeria de imagens: