Maria Ignez Novais Ayala

Versos de moçambique e de banda (f.001, l. A ) [0:01 a 3:53] [cad_div-01]

Aprendi com José Lopes de Campos, contramestre do Mestre Conrado do “Batalhão de Moçambique Nossa Senhora do Rosário e São Benedito” que os versos cantados durante a dança se chamam ramos.

Como saber quais ramos foram trazidos pela tradição a que pertence cada mestre ou contramestre e que integram o texto mental que cada indivíduo traz em si? Um dos modos de observar foi o esforço para identificar quemo que canta, quando canta e se há alguma coreografia relacionada com o canto e os gestos. Com o tempo, essas questões foram se delineando em anotações, registros da performance, conversas e entrevistas com participantes.

Os apontamentos de campo de 1972, transpostos da caderneta para o primeiro relato de pesquisa, já evidenciam, embrionariamente, o que iria se observar nos anos seguintes, a este respeito. Passemos aos repertórios selecionados:

A bandeira branca saiu na rua [cad_div-01]

A bandeira branca saiu na rua

A bandeira branca saiu na rua

A bandeira de Nossa Senhora

oi chama S. Benedito

pra tirá a bandeira fora

Eh São Benedito

Viva a Virgem Maria!

(Batalhão de Moçambique do Itapeti – mestre Benedito Valentim de Godoi Pinheiro, o Seu Dito Pinheiro)

 

Toque da Banda de Música (acompanhada de latidos de cachorro ao final)

  • Outros ramos de Moçambique

1) Nóis vamo a precura  – 1972 (f.001, l. A ) [5:07 – 7:25] [cad_div-02]

Nóis vamo a precura

Precurando inté achá

ai você baila você canta

que é pra nóis adorá

Eh S. Benedito!

Sarve a Virgem Maria!

Nossa Senhora do Rosário.

Ehhh…

Nota: Esta saudação é feita a cada mudança de “ramo”

2) Licença dono da festa   – 1972 (f.001, l. A ) [7:35-8:15] [cad_div-03]

 

Licença dono da festa

prá chegá nossa bandeira

Eu peço a menor licença

pra ganhá a licença inteira

Eh estrela!

Eh a Virgem Maria!

Nossa Senhora do Rosário!

3) Divino Espírito Santo – 1972 (f.001, l. A ) [8:35-10:57] [cad_div-04]

Divino Espírito Santo

abre as asas pra voar

hoje chegou seu dia

que nóis vamo festejá

Eh sarve S. Benedito!

eh sarve a Virgem Maria!

4) Andorinha voou foi se embora – 1972 (f.001, l. A ) [11:00-12:07] [cad_div-05]

Andorinha voou foi se embora

passarinho santo de Nossa Senhora.

Eh S. Benedito!

Eh Nossa Senhora!

Oi estrela!

Eh a Virgem Maria!

Nossa Senhora do Rosário!

5) Andorinha voou foi em Belém – 1972 (f.001, l. A ) [12:08-14:12] [cad_div-06]

Andorinha voou foi em Belém

Nossa Senhora que mandou vê

Eh os anjooo

Sarve a Virge Maria

Nossa Senhora do Rosário!

Nota: até aqui, versos do Batalhão de Moçambique do Itapeti

 

6) Sarve  sarve sarve o santo – 1972 (f.001, l. A ) [14:18-17:36] [cad_div-07]

(Batalhão Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, do Mestre Conrado)

Ô sarve sarve sarve o santo

sarve o divino  Espírito Santo

 

Eh S. Benedito!

Eh Virgem Maria!

Eh ah eh S. Benedito!

Nota: Atenção aos sons (bumbo, parnanguame, guizos e bastões)

7) Eu subi co’a coroa – 1972 (f.001, l. A ) [17:50-19:00] [cad_div-08]

Eu subi lá no céu

no repique do sino

eu subi co’a coroa

eu desci co’o Divino

Ehh…

Nota: Este ramo aparece novamente  diante

8) Oh divino pai oh divino mestre – 1972 (f.001, l. A ) [23:00-26:09] [cad_div-09]

Oh divino pai oh divino mestre

no nosso batismo o Divino aparece

 

Eeh São Benedito!

Eh Virge Maria!

Eh S. Benedito!

Ah eh!!!

9) Passarinho santo que Deus deixou – 1972 (f.001, l. A ) [26:10-28:10] [cad_div-10]

 

Passarinho santo que Deus deixou

ai o divino Espírito Santo

Ehhh…

 

10) São Benedito é o nosso santo padroeiro – 1972 (f.001, l. A ) [28:11-30:27] [cad_div-11]

O São Benedito

é o nosso santo padroeiro

É da religião católica

e do folcloro brasileiro

Ehh…

11) Oi Moçambique – 1972 (f.001, l. A ) [30:28-32:32] [cad_div-12]

Danço o moçambique

desde o tempo de criança

tenho fé em S. Benedito

tenho fé, tenho esperança

Ehh…

12) A riqueza nunca usa soberbia – 1972 (f.001, l. A ) [32:33-35:20] [cad_div-13]

A riqueza nunca usa soberbia

A riqueza vem do céu

Do rosário de Maria

ou

A riqueza já não usa soberbia

A riqueza vem do céu

Do rosário de Maria

Ehh…

 

  • sobre promessa e carros de bois

No relato de pesquisa fiz anotações com base em conversa com uma devota que estava com sua bandeira; vejamos:

 

Sobre a Bandeira do Divino

Informante: Da Ana Ferreira de Toledo

A pessoa faz a promessa e sai [com a bandeira]. Saiu no ano passado pela primeira vez para pagar uma promessa: sua filha estava doente. A filha saiu a primeira vez e ela, a mãe, continua saindo. Segundo a informante a festa começou no dia 20 de abril. Segundo ela tem 12 carros de boi na Entrada dos Palmitos. Os carros saem da Praça das Bandeiras, mas este ano por estar em obras o local, a saída é no Tiro de Guerra. Os bois têm os chifres enfeitados com flores de papel crepom: vermelhas, rosas, azuis, amarelas. A canga também é enfeitada de flores. Crianças saem nos carros de bois enfeitados com cipreste e flores de papel crepom.

Entrada dos Palmitos:

Conforme Molina e Kato (1973),

O cortejo obedece a seguinte ordem:

Cavaleiros do Divino, Moçambique, congada, carros de bois, bandeiras e violeiros (como chamam os foliões), banda e povo.

Em minhas anotações de 1972, consta:

1º – Cavaleiros do Divino

2º – Carros de bois carregados de palmitos (palmeiras) e crianças. Os carros são enfeitados com arcos de cipreste e flores de papel. Bois: flores nos chifres e na cangalha.

3º – Moçambiqueiros. Dois batalhões: Batalhão N. S. do Rosário e São Benedito (Mestre Conrado Alves de Souza) e Batalhão do Itapeti (Mestre Benedito Valentim Pinheiro).

4º – Bandeiras do Divino

Embora não tenha anotado, estava presente a congada de Mestre Domingos Ricardo, a banda de música, seguida pelo povo em geral.

Reproduzo um trecho da conversa com Dona Ana Ferreira de Toledo:

Quantos carros de boi tem? – 1972 (f.001 l.B) [01:20 – 02:33] [cad_div-14]

  • sons de instrumentos e guizos de moçambique [19:00 – 19:47] [cad_div-15]
  • novos ramos:

1) Nossa bandeira é com fita azul – 1972 (f.001 l.B) [22:00-23:50] [cad_div-16]

Nossa bandeira é com fita azul

De Nossa Senhora de Tambaú

Nossa bandeira é de fita azul

Nossa Senhora de Tambaú

 

Ehh…

2) Ai moçambique  – 1972 (f.001 l.B) [23:50-27:00] [cad_div-17]

Ai moçambique

foi dois anjo que inventou

dança preto dança branco

dança Deus nosso senhor

3) Eu subi lá no céu – 1972 (f.001 l.B) [27:00- 28:06] [cad_div-18]

Eu subi lá no céu

No repique do sino

Eu subi co’a coroa

Desci co’ o Divino

4) Cuitelinho verde – 1972 (f.001 l.B) [35:00-35:36] [cad_div-19]

Nota: Versos ditos pelo contramestre Zé Lopes em conversa, onde manifesto minha ignorância total: não entendo o que ele fala nem o que é cuitelinho (=beija-flor)

5) O sór nascê – 1974 (f. 007 – l. A) [a partir de 29:15]  [cad_div-20]

O sór nascê eu vi nascê

pula  castigo que eu quero vê

6) Ô vamos passar brilhante [cad_div-21]

Ô vamos passar brilhante

nós vamos passar brilhante meus irmão

Nota: brilhante é o nome atribuído aos bastões. Há nos versos que ganham uma coreografia própria: os dançadores dançam sobre os “brilhantes” enfileirados no chão sem tocar neles. Neste caso chamam-se “castigos”, como cantado acima e os mestres ficavam furiosos quando os dançadores embriagados, ao pularem os bastões, espalhavam tudo…

7) Estrelinha que vem – 1974 (f. 007 – l. B) [0:19 -040] [cad_div-22]

Estrelinha que vem

Estrelinha que vai

Com São Benedito

Nós vamos em paz

Nota: Muitas vezes este ramo é cantado antes de intervalos para descanso, de conclusão de apresentações durante a festa.

8) Ô Mariaa – 1974 (f. 007 – l. A) [30:25- 31:05 ] fragmento [cad_div-23]

Em nome do pai e do filho

Ô Mariaa

E do Espírito Santo Amém

Ô Mariaa

O pai nosso que estais no céu

Ô Mariaa

Santificado seja o vosso nome

Ô Mariaa

Venha nós o vosso reino

Ô Mariaa

Seja feita a vossa vontade

Ô Mariaa

Assim na terra como no céu

Ô Mariaa

O pão nosso de cada dia

Ô Mariaa

nos dai hoje e perdoai

Ô Mariaa

nossas dívidas de todo […]

Nota: Há outro registro, Ô Mariaa – 1977 (F.099 – l. A) [8:00 – 12:14], em que se gravou toda a reza cantada, mas a qualidade do registro foi prejudicada por interferências sonoras no contexto. Os versos seguintes aos que faltam acima concluem o Padre Nosso, adaptado em louvor a Maria e terminam com versos de agradecimentos a todo do grupo e aos responsáveis pela festa.  Tanto as orações adaptadas à maneira dos responsos , quanto ao improviso final, demonstrando sua gratidão aos componentes do grupo revelam a cordialidade característica da cultura caipira.

[Selecionar ainda um trecho do “obrigado pela atenção” em que agradece a presença do tocador de parnanguame e outros.]
  • Sons e versos cantados das Congadas

Congada Mogiana Brasileira de migrantes, relacionada a Terno de Congo de Minas de São Gonçalo de Sapucaí, MG

Ô Virgem Maria – 1972 (f.002 l.A) [11:30-15:10] [cad_div-24]

Ô Virgem Maria

Ô Virgem Senhora

Visitai os anjos

No reino da glória

Visitai os anjos

No reino da glória

 

Nossa Senhora das Dores

Rainha dos anjos

Coroada de flores

Rainha dos anjos

Coroada de flores

 

Ô Virgem Maria…

Ô Virgem Maria…

Ô Virgem Maria…

Ô Virgem Maria

Tem a graça e tem a luz

O rosário de Maria

O mistério de Jesus

Virgem Maria!

 

Ô Virgem Maria…

Ô Virgem Senhora

Nossa Senhora das Dores

Rainha dos anjos

Coroada de flores

Rainha dos anjos

Coroada de flores

Ô Virgem Maria…

Dançava os preto velho

desde o tempo do cativeiro

laçado pelo pé

São Benedito foi cozinheiro

Eh São Benedito!

 

Uma das integrantes dá informações e diz ”Esta festa esteve boa, esteve de deixar saudade!”

Nota: Naquela época, estava iniciando minhas leituras de João Guimarães Rosa, onde encontrei um eco desta frase na Festa de Manuelzão.

Deus vos salve casa santa– 1972 (f.002 l.A) [23:10-28:50] [cad_div-25]

Deus vos salve casa santa

onde Deus fez a morada

Deus vos salve a casa santa

onde Deus fez a morada

onde mora o calix bento

e a hóstia consagrada

onde mora o calix bento

e a hóstia consagrada

Nota: enquanto gravava, fiz algumas observações sobre a dança em volta do Mastro.

Ai Divino – 1972 (f.002 l.A) [30:20-34:00] [cad_div-26]

Ai Divino

Divino da Eucaristia

Ai Divino

Divino da Eucaristia

São Pedro será meu mestre

e o Divino será minha guia

São Pedro será meu mestre

e o Divino será minha guia

– Congo de São Gonçalo de Sapucaí, Minas Gerais – 1974 (f. 005, l. A) [até 6:23] [cad_div-27]

Ô sabiá

Ô sabiá

tu é mais feliz que eu

Ô sabiá

invejo o destino seu

Ô sabiá

porque canta triste assim

Ô sabiá

deixa a tristeza pra mim

 

Quando eu vejo um sabiá

numa gaiola cantando

eu começo a relembrar

o tempo que eu vivi amando

aquela ingrata Maria

que roubou minha alegria

eu também vivia cantando

pois isso era o que eu queria

Salve a rainha e o rei [cad_div-28]

Salve a rainha e o rei

Porque o rei tem coroa

Salve a rainha e o rei

Porque o rei tem coroa

O mistério de São Benedito

eu não deixo assim à toa

O mistério de São Benedito

eu não deixo assim à toa

 

Salve a rainha e o rei

Porque o rei tem coroa

Salve a rainha e o rei

Porque o rei tem coroa

Mas o meu coraçãozinho

Eu não entrego assim à toa

Mas o meu coraçãozinho

Eu não entrego assim à toa

– Congada de S. Benedito e Divino, de Mestre Domingos Ricardo:

Nossa Senhora vem num barco – 1974 (f. 005, l. A) [6:23 – 9:02] [cad_div-29]

Nossa Senhora vem num barco

São José que tá remando

Nossa Senhora vem num barco

São José que tá remando

Levanta a bandeira de paz

São Benedito está mandando

Levanta a bandeira de paz

São Benedito está mandando

Ô linda baiana – 1974 (f. 005, l. A) [9:03 – 13:21] [cad_div-30]

− Ô linda baiana

− O que é meu bem   Bis

− Como vai a nossa festa

− Ai vai indo muito bem

 

− Oi linda baiana, oi linda meu bem

− Samba baiana, a saia dela é ouro em pó                 Bis

Samba baiana

 

− Oi linda baiana

– O que é meu bem

− Como vai o nosso prefeito

− Ai vai indo muito bem

− Oi linda baiana

− O que é meu bem

− Como vai o nosso festeiro

− Ai vai indo muito bem

 

− Oi linda baiana, oi linda meu bem

− Samba baiana, a saia dela é ouro em pó                 Bis

− Samba baiana

 

− Oi linda baiana

− O que é meu bem                                                   Bis

− Como vai as nossas crianças

− Ai vai indo muito bem                                            Bis

 

− Oi linda baiana, oi linda meu bem

− Samba baiana, a saia dela é ouro em pó                 Bis

Samba baiana

Avistei a cidade do Rio – 1974 (f. 005, l. A) [13:50 – 15:36] [cad_div-31]

Avistei a cidade do Rio

Avistei a cidade do Rio

Saio da barca e entrei no navio

Avistei a cidade do Rio

Saio da barca e entrei no navio

Ai vem navio – 1974 (f. 005, l. A) [15:37 – 19:30] [cad_div-32]

Ai vem navio/ ele vem serenando

aqui noutra canoa/ eu estou remando

cortando água/ cortando água

Olha lá que ele vem/ ele vem serenando

cortando água/ cortando água

Olha lá que ele vem/ ele vem serenando

Nota: Esta é apenas a parte inicial da transcrição deste poema narrativo cantado.

Ô Laura – 1974 (f. 005, l. A) [19:31 – [cad_div-33]

Há muito tempo

que eu não vejo a minha Laura

meu Deus do céu

ela veio me avisar

cuidado com essa mulher

que ela vai lhe abandonar

daqui há pouco eu não posso acreditar

Ô Laura!

 

Ô Laura ô Laura ô Laura

Ô Laura ô Laura ô Laura

Ô Laura

Volte pra casa pro meu coração sossegar

Volte pra casa pro meu coração sossegar

Nota: Transcrição apenas o início.

Chorei chorei  [cad_div-34]

Chorei chorei

Mais do que eu             Bis

Mais ninguém chorou

 

Nossa Senhora do Rosário

São Benedito               Bis

É meu protetor

Andorinha dourada  [cad_div-35]

Andorinha dourada / andorinha dourada

Andorinha dourada / andorinha dourada

Bate as asinha andorinha/ é de madrugada

Bate as asinha andorinha/ é de madrugada

Viva meu S. Benedito [cad_div-36]

Viva meu S. Benedito

Viva nessa hora

Viva meu S. Benedito

Ele é o rei da glória

− Congada N. S. do Rosário e São Benedito, de Mestre Alcides Pereira de Castro

Oi o meu coração tá doeno  – 1975 (f.045 – l. A) [0:00-2:22] [cad_div-37]

Oi o meu coração tá doeno

Tá doeno deixa doer

Oi o meu coração tá doeno

Tá doeno deixa doer

 

Tá doeno deixa doer                     Bis

tá doeno tá doeno

deixa doer

Oi o meu coração…

Meio dia tem moçambique – 1975 (f.045 – l. A) [2:22 -2:50] [cad_div-38]

Meio dia tem moçambique

duas horas tem cavaiada

cinco horas tem procissão

as seis vai ter missa cantada

Ó a poeira aí – 1975 (f.046 – l. A) [18:27 – 22:58] [cad_div-39]

Ó a poeira aí, morena

pisa devagar

Tem poeira aí, morena

pisa devagar

Que o meu sapato é branco

eu não quero escorregar

Nota: Esta canção tem um ritmo e melodia parecidos com o do samba-lenço de Mauá; há uma voz feminina parecida com a da Dona Chiquinha, da Vila das Palmeiras. No final, som de carro de boi.

Agradecendo o almoço

[…]

To fazendo a despedida

com a dança do coração

quem tem lenço na campana (?)

quero ver agora na mão

A dança da despedida

é  dança do coração

A dança da despedida

é  dança do coração

Quem me ensinou a nadar – 1976 (f.045 – l. B) [6:15 – 8:35] [cad_div-40]

Quem me ensinou a nadar

ora foi os peixinho do mar                 Bis

foi foi foi foi marinheiro

foi os peixinho do mar                  Bis

Cai sereno cai devagarzinho – 1976 (f.045 – l. B) [10:45 – 12:30] [cad_div-41]

Cai sereno cai devagarzinho

Cai sereno cai devagarzinho

Cai sereno pra molhar o meu caminho

Cai sereno pra molhar o meu caminho

− Moçambique São Benedito, de Biritiba Ussu – Mestre Joaquim Firmino Fernandes

Glória a Deus que lhe ajude  – 1976 (f.049 – l. A) [0:00- 3:57] [cad_div-42]

Glória a Deus que lhe ajude

o festeiro

Quando o galo canta – 1976 (f.049 – l. A) [15:29 – 18:41] [cad_div-43]

Quando o galo canta

é de madrugada

saia na janela

sai nossa congada

Nota: continua com o som dos tambores em evolução e emenda com outro som de tambores.

Explicação de Seu Conrado sobre o moçambique  – 1976 (f.049 – l. A) [13:00 – 14:20] [cad_div-44]

dança africana

− Moçambique de Crianças, bairro de Paraitinguinha, Salesópolis, de Mestre Tarcísio Olympio – 1976 (f.049 – l. B) [15:32 – 17:18] [cad_div-45]

Piripiripiri

eu vi o canário cantá

ah eheheh ah

da licença pra nóis pelejá

– Congada Nossa Senhora do Rosário, dos Mestres Dico, José Isidoro e Nego, de Brás Cubas [cad_div-46]

Ô Virge Maria (f.099 – l.B) [11:16 –

 

Ô Virgee Maria

Rainha do Rosário

ela é a nossa guia

– 1978 (f.102 – l. A [0:00 – 6:00] [cad_div-47]

fim de canto de moçambique; o som de guizos emenda com o som da marujada

Abre a porta do céu

São Miguel

Venha arreceber

Traz a balança

E pesa essas alma

Quem for pecador

Vai aparecer

[13:00 –] [cad_div-48] parte declamada – segue outro ritmo

 

O rosário é meu [15:00 -][ cad_div-49]

O rosário é meu

O rosário é meu

Foi pai de santo

Quem me deu

Nota: som dos tambores por volta do 20:00 e continuando até Rainha fulô

Rainha fulô [cad_div-50]

Rainha fulô

Rainha fulô

Rainha fulô

Rainha fulô

Salve rainha de nosso Sinhô

  • Foliões do Divino

Foliões do Divino cantam no Império do Divino – 1975 (f.045 – l. A) [26:50 – 28:40] [cad_div-51]

Que encontro tão bonito

nós tivemo nessa hora…

O grupo conhecido como foliões do Divino tinha à frente o Mestre João Manoel do Nascimento, acompanhado por Ulisses de Souza Moraes, ambos tocando violas, João Cardoso de Lima e Salvador Cardoso do Nascimento, que tocavam caixa e pandeiro. Moravam em Biritiba Ussú, mas ficavam em Mogi das Cruzes, durante a festa.

Estão presentes em toda a novena que antecede o domingo de Pentecostes, em várias ocasiões, cantando em louvor ao Divino, homenageando festeiros nas casas e nas ruas por onde passam: a cada noite visitam ex-festeiros e festeiros do ano, saindo de uma casa, indo a outra, acompanhados de devotos, muitos carregando suas bandeiras em cumprimento a promessas, terminando com a chegada ao Império do Divino. O Império é preparado com antecedência, com ornamentação que dá destaque à imagem do Divino. Local em que as pessoas se dirigem para rezar diante da imagem, onde são guardadas as bandeiras dos devotos que saem em procissão, durante a madrugada, conhecida como alvorada, e ponto de chegada da Entrada dos Palmitos. A Entrada dos Palmitos ocorre na manhã dos sábado, penúltimo dia da festa. É um grande cortejo festivo que atravessa a cidade com cavaleiros, charretes, carros de bois, carregando crianças, palmeiras e bambus. Os festeiros andam a pé, junto a devotos com suas bandeiras, banda de música, grupos de moçambique, congadas e o povo em geral. Selecionei alguns trechos cantados pelos foliões do Divino, pois o som das vozes e instrumentos de corda e percussão atravessava ruas da cidade todas as noites do período de festas e eram marcantes, compondo, a seu modo, a polifonia da festa. O modo de cantar dos foliões era singular.

Dentre os versos cantados, transponho uma sequência fornecida por eles a Alfredo Molina e Alice Kato, publicada em A Festa do Divino em Mogi das Cruzes (1973, p, 14 -15):

Divino Espírito Santo

Espírito verdadeiro

Abençoe os seus devotos­­­­­­­­

E também os nobres festeiros.

 

Divino Espírito Santo,

Espírito de alegria,

Abençoe os seus festeiros

Com toda a sua família.

 

Meu Divino veio voando

Está cansado de voar;

Meu Divino veio do céu

Para seu dia festejar.

 

Divino Espírito Santo,

É nosso pai de verdade;

Ajudai a nossa vida

E para toda a eternidade.

 

Na chegada ao Império

Fazemos nossa oração

Ali está o Espírito Santo

O nosso pai da salvação.

 

Os foliões cantam no Império do Divino – 1975 (f.045 – l. A) [26:50 – 28:40] e

1977 (f.098 – l. A) [3:00 em diante]

Que encontro tão bonito

nós tivemo nessa hora…

 

 

1 As cadernetas de pesquisa em Mogi das Cruzes, SP e outras fontes

As pesquisas de campo sobre a Festa do Divino, danças religiosos (São Gonçalo, Santa Cruz), benzimentos e narrativas orais contam com várias cadernetas com anotações, desenhos e gráficos, fundamentais para me lembrar de pessoas, de lugares e da variação coreográfica que a câmera fotográfica nem sempre conseguia registrar com precisão, pois muitas vezes as salas ou outros espaços estavam lotados de participantes e era impossível fazer uma descrição detalhada, simultânea à observação.

Selecionei alguns exemplos para expor e discutir os procedimentos metodológicos que os norteiam.

1.1 Festa do Divino: cadernos, transcrições e outras anotações para lembrar

A Festa do Divino de Mogi das Cruzes inaugura os registros etnográficos deste Acervo. Desde as três primeiras fitas gravadas durante a festa, em 1972, fui reunindo informações contendo versos cantados por grupos de moçambique e congada, conversas com mestres, outros artistas populares, festeiros e ex-festeiros. A cada ida a campo ficava nítida a necessidade do convívio constante com integrantes dos grupos para termos uma compreensão diferente das práticas culturais tradicionais vivas. Quando líamos notícias de jornal sobre esta festa ou outras formas de expressão, sempre encontrávamos ênfase no fato de ser representativa de costumes antigos que ainda eram mantidos por poucas pessoas, minguando cada vez mais o número de dançadores.

Para a amostragem da metodologia utilizada naquela época, recorro a fitas gravadas de 1972 a 1977. Revi fotos, anotações e relatos de pesquisa, começando pela documentação mais antiga. O relato de campo feito logo após o meu “encontro” com a Festa do Divino, contém transcrição de versos, informações dadas em rápidas conversas e reunião de endereços das pessoas com quem conversei. Testava técnicas que me auxiliassem a aguçar meus sentidos para ouvir o que os artistas populares contavam e cantavam, para melhorar o modo de anotar, de refletir sobre o que presenciava, sobre a bibliografia consultada, visando a construção de caminhos teóricos e analíticos. Participantes do Batalhão de Moçambique de Mestre Conrado nos levaram a outras festas, a que o grupo era convidado, e a conhecer outras formas de expressão de que participavam ao longo do ano, como a Dança de São Gonçalo, a Dança de Santa Cruz, realizadas em pagamento de promessas.

O Catálogo geral de registros sonoros inicia com um conjunto das fitas, do no. 001 a 049, gravadas em Mogi das Cruzes, bairros rurais, distritos e cidades vizinhas, de 1972 a 1975.

Em 1976, A Festa do Divino de Mogi das Cruzes foi registrada desde os preparativos, dias antes da festa. Além dos registros sonoros, foram feitas muitas fotos, buscando retratar os diferentes contextos e as pessoas responsáveis pela festa, entre elas as doceiras e cozinheiras, cujo trabalho começa um mês antes da novena.  De 1977 e 1978 são poucos os registros, dos quais selecionei alguns exemplos.

1.1.1 Primeiro relato de pesquisa

O relato de pesquisa “FESTA DO DIVINO – MOGI DAS CRUZES 20/05/1972 e 21/05/1972”, guardado na pasta Mogi das Cruzes – Pesquisas – Festa do Divino, datilografado em páginas destinadas a rascunho, reúne informações de anotações feitas em campo e outros manuscritos. Não se trata de um relato de pesquisa para ser publicado ou mostrado a alguém. Foi guardado nesta pasta e conservado junto com outros documentos (fotos, cartazes anuais das festas…), anotações e primeiras sistematizações sobre o que se viu e ouviu em campo para serem retomadas depois.

Começa com a transcrição de versos contidos na fita gravada dia 20/05/1972. Foram feitos registros durante vários momentos do dia que se caracteriza pela Entrada dos Palmitos, cortejo que ocorre na manhã do sábado, antes do domingo de Pentecoste, e distingue a festa do divino de Mogi das Cruzes de outras existentes no estado de São Paulo, no Centro Oeste e Sul (Minas, Rio de Janeiro, Santa Catarina…).

Os grupos de moçambique e congada despertaram meu interesse e passei a ouvi-los com atenção a partir de então. A cada ano apareciam outros grupos de moçambique e de congada e eram muito diferentes nos cantos, danças, uso de instrumentos, ritmos e melodias. As transcrições me mostravam a diferença de repertório dos grupos, as gravações, as vozes, os acompanhamentos instrumentais. As coreografias eram observadas e feitas anotações e gráficos tentando mostrar a variedade de passos e como alguns versos cantados estavam relacionados com os modos de dançar. Os sons dos moçambiques, produzidos por guizos presos em uma cinta atada no tornozelo de alguns dançadores e pelo manejo dos bastões durante a dança, complementavam o ritmo e a melodia que saiam do canto e dos instrumentos.  As congadas com andamentos mais lentos ou mais alvoroçados em seus diferentes ritmos e melodias destacavam os cantos, as vozes, os corpos em movimento, os bumbos. Tudo isso também me levava a transcrever, a anotar, a observar, a refletir.

Não cheguei a fazer qualquer trabalho acadêmico sobre a Festa do Divino de Mogi das Cruzes ou de suas Formas de Expressão, mas estas sensações e registros se conservaram e foram importantes no meu período de formação como pesquisadora de culturas orais, compartilhado desde 1974 com Marcos Ayala.

Cedo percebi que a escrita faz uma representação muito limitada das culturas orais. Os versos cantados, as conversas quando passadas em letra de forma perdem a vivacidade da fala com as inflexões para ajuste de fonemas e frases ao ritmo e melodia. As partituras também são simulacros do oral.

Atividades de organização das fontes, como transcrição poética e minutagem dos registros sonoros e audiovisuais em arquivos digitais, são necessárias para poder localizar rapidamente os originais para mostrá-los. O meio de divulgação de estudos acadêmicos para exposição e análise das diferentes formas de conhecimento continua a ser o texto escrito, sabemos.

Consultando hoje as velhas anotações junto com os registros digitalizados de som e imagem, é possível pensar em criar novas formas de representação e acesso aos documentos, consciente de que estes são fragmentos de registros de culturas orais, existentes em eventos que nunca se repetirão, mesmo que a Festa do Divino continue a se fazer anualmente.

1.1.2 Sons da rua

Nas gravações, os versos dos diferentes grupos de moçambique e de congada encontram-se entremeados com trechos de conversas, de sons simultâneos que se ouve na rua, criando ruídos ou  efeitos polifônicos que são produzidos pela fusão aleatória de dois ou mais grupos cantando e tocando próximos uns dos outros.

Visando criar certa organização da diversidade presenciada ao longo de seis ou sete anos, os versos e falas selecionados aparecem agrupados, conforme a forma de expressão (moçambique, congadas) com o objetivo de demonstrar aos leitores/ouvintes essa diversidade em cada conjunto. Para ser uma mostra representativa, escolhi trechos da documentação que deixassem fluir a mistura de sons e palavras em uma festa de rua, incluindo letras das canções e sonoridades, que me marcaram e constam como minhas primeiras referências. Somam-se as percepções de Magno Augusto Job de Andrade, a pessoa que, depois de mim, mais conhece as fontes sonoras do Acervo Ayala, e é o responsável pela transcrição de meios analógicos a digitais e pelo desenho melódico mais adequado para os efeitos que se quer provocar nos ouvintes.

  • versos de moçambique e de banda (f.001, l. A ) [0:01 a 3:53] [cad_div-01]

Antes de iniciar a exposição dos exemplos transcritos e dos registros sonoros, cabe fazer algumas observações sobre os versos cantados por grupos de moçambique.

Aprendi com José Lopes de Campos, contra-mestre do Mestre Conrado do “Batalhão de Moçambique Nossa Senhora do Rosário e São Benedito” que, nesta dança, se chamam ramos os versos cantados durante a dança.

Como saber quais ramos foram trazidos pela tradição a que pertence cada mestre ou contra-mestre e que integram o texto mental que cada indivíduo traz em si?

Um dos modos de observar foi o esforço para identificar quem, o que canta, quando canta e se há alguma coreografia relacionada com o canto e os gestos. Com o tempo, essas questões foram se delineando em anotações, registros da performance, conversas e entrevistas com participantes.

Os apontamentos de campo de 1972, transpostos da caderneta para o primeiro relato de pesquisa, já evidenciam, embrionariamente, o que iria se observar nos anos seguintes, a este respeito. Passemos aos repertórios selecionados:

 

A bandeira branca saiu na rua [cad_div-01]

A bandeira branca saiu na rua

A bandeira de nossa senhora

oi chama S. Benedito

pra tirá a bandeira fora

Eh São Benedito

Viva a Virge Maria!

(Batalhão de Moçambique do Itapeti – mestre Benedito Valentim de Godoi Pinheiro, o Seu Dito Pinheiro)

Toque da Banda de Música (acompanhada de latidos de cachorro ao final)

  • Outros ramos de Moçambique

1) Nóis vamo a precura  – 1972 (f.001, l. A ) [5:07 – 7:25] [cad_div-02]

Nóis vamo a precura

Precurando inté achá

ai você baila você dança

que é pra nóis adorá

Eh S. Benedito!

Sarve a Virgem Maria!

Nossa Senhora do Rosário.

Ehhh…

2) Licença dono da festa   – 1972 (f.001, l. A ) [7:35-8:15] [cad_div-03]

Licença dono da festa

prá chegá nossa bandeira

Eu peço a menor licença

pra ganhá a licença inteira

Eh estrela!

Eh a Virgem Maria!

Nossa Senhora do Rosário!

3) Divino Espírito Santo – 1972 (f.001, l. A ) [8:35-10:57] [cad_div-04]

Divino Espírito Santo

Abre as asas pra voar

hoje chegou seu dia

que nóis vamo festejá

Eh sarve S. Benedito!

eh sarve a Virgem Maria!

4) Andorinha voou foi se embora – 1972 (f.001, l. A ) [11:00-12:07] [cad_div-05]

Andorinha voou foi se embora

Passarinho santo de Nossa Senhora.

Eh S. Benedito!

Eh Nossa Senhora!

Oi estrela!

Eh a Virgem Maria!

Nossa Senhora do Rosário!

5) Andorinha voou foi em Belém – 1972 (f.001, l. A ) [12:08-14:12] [cad_div-06]

Andorinha voou foi em Belém

Nossa Senhora que mandou vê

Eh  os anjooo

Sarve a Virge Maria

Nossa Senhora do Rosário!

Nota: até aqui, versos do Batalhão de Moçambique do Itapeti

6) Sarve  sarve sarve o santo – 1972 (f.001, l. A ) [14:18-17:36] [cad_div-07]

Ô sarve sarve sarve o santo

sarve o divino  Espírito Santo

Eh S. Benedito!

Eh Virgem Maria!

Eh ah eh S. Benedito!

Batalhão Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, do Mestre Conrado

Nota: Atenção aos sons (bumbo, parnanguame, guizos e bastões)

7) Eu subi co’a coroa – 1972 (f.001, l. A ) [17:50-19:00] [cad_div-08]

Eu subi co’a coroa

No repique do sino

Eu subi co’a coroa

Eu desci co’o Divino

Ehh…

Nota: Este ramo aparece novamente  diante

8) Oh divino pai oh divino mestre – 1972 (f.001, l. A ) [23:00-26:09] [cad_div-09]

Oh divino pai oh divino mestre

no nosso batismo o Divino aparece

Ehh São Benedito!

Eh Virge Maria!

Eh S. Benedito!

Ah eh!!!

9) Passarinho santo que Deus deixou – 1972 (f.001, l. A ) [26:10-28:10] [cad_div-10]

Passarinho santo que Deus deixou

ai o divino Espírito Santo

Ehhh…

10) São Benedito é o nosso santo padroeiro – 1972 (f.001, l. A ) [28:11-30-27] [cad_div-11]

O São Benedito é o nosso santo padroeiro

É da religião católica

e do folcloro brasileiro

Ehh…

11) Oi Moçambique – 1972 (f.001, l. A ) [30:28-32:32] [cad_div-12]

Oi Moçambique

é desde o tempo de criança

tenho fé em S. Benedito

tenho fé, tenho esperança

Ehh…

12) A riqueza nunca usa soberbia – 1972 (f.001, l. A ) [32:33-35:20] [cad_div-13]

A riqueza nunca usa soberbia

A riqueza vem do céu, do rosário de Maria

A riqueza já não usa soberbia

A riqueza vem do céu, do rosário de Maria

Ehh…

  • sobre promessa e carros de bois

No relato de pesquisa fiz anotações com base em conversa com uma devota que estava com sua bandeira, Dona Ana Ferreira de Toledo, e na observação:

– SOBRE A BANDEIRA DO DIVINO. Informante: Da Ana Ferreira de Toledo.

A pessoa faz a promessa e sai [com a bandeira]. Saiu no ano passado pela primeira vez para pagar uma promessa: sua filha estava doente. A filha saiu a primeira vez e ela, a mãe, continua saindo. Segundo a informante a festa começou no dia 20 de abril. Segundo ela tem 12 carros de boi na Entrada dos Palmitos. Os carros saem da Praça das Bandeiras, mas este ano por estar em obras o local, a saída é no Tiro de Guerra. Os bois têm os chifres enfeitados com flores de papel crepom: vermelhas, rosas, azuis, amarelas. A canga também é enfeitada de flores. Crianças saem nos carros de bois enfeitados com cipreste e flores de papel crepom.

ENTRADA DOS PALMITOS:

1º – Cavaleiros do Divino

2º – Carros de bois carregados de palmitos (palmeiras) e crianças. Os carros são enfeitados com arcos de cipreste e flores de papel. Bois: flores nos chifres e na cangalha.

3º – Moçambiqueiros. Dois batalhões: Batalhão N. S. do Rosário e São Benedito (Mestre Conrado Alves de Souza) e Batalhão do Itapeti (Mestre Benedito Valentim Pinheiro).

4º – Bandeiras do Divino

– Quantos carros de boi tem? – 1972 (f.001 l.B) [01:20 – 02:33] [cad_div-14]

  • sons de instrumentos e guizos de moçambique [19:00 – 19:47] [cad_div-15]
[Na coletânea podem aparecer estes e outros trechos semelhantes encontrados nos vários anos]
  • novos ramos:

1) Nossa bandeira é com fita azul – 1972 (f.001 l.B) [22:00-23:50 + 23:50-] [cad_div-16]

Nossa bandeira é com fita azul

Nossa Senhora de Tambaú

Nossa bandeira é de fita azul

Nossa Senhora de Tambaú

Ehh…

2) Ai moçambique  – 1972 (f.001 l.B) [23:50-27:00] [cad_div-17]

Ai moçambique

foi dois anjo que inventou

dança preto dança branco

dança Deus nosso senhor

3) Eu subi lá no céu – 1972 (f.001 l.B) [27:00- 28:06] [cad_div-18]

Eu subi lá no céu

No repique do sino

Eu subi co’a coroa

Desci co’ o Divino

4) Cuitelinho verde – 1972 (f.001 l.B) [35:00-35:36] [cad_div-19]

Cuitelinho verde

beija a flor de laranjeira

Ele vem devagarzim

Pra beijar nossa bandeira

Nota: Versos ditos pelo contra-mestre Zé Lopes em conversa, onde manifesto minha ignorância total: não entendo o que ele fala nem o que é cuitelinho (=beija-flor)

5) O sór nascê – 1974 (f. 007 – l. A) [29:15- ……..]  [cad_div-20]

O sór nascê eu vi nascê

pula  castigo que eu quero vê

6) Ô vamos passar brilhante [cad_div-21]

Ô vamos passar brilhante

nós vamos passar brilhante meus irmão

Nota: brilhante é o nome atribuído aos bastões. Há nos versos que ganham uma coreografia própria: os dançadores dançam sobre os “brilhantes” enfileirados no chão sem tocar neles. os mestres ficavam furiosos quando os dançadores embriagados, ao pularem os bastões, espalhavam tudo…

7) Estrelinha que vem – 1974 (f. 007 – l. B) [0:19 -040] [cad_div-22]

Estrelinha que vem

Estrelinha que vai

Com São Benedito

Nós vamos em paz

Nota: Muitas vezes este ramo é cantado antes de intervalos para descanso, de conclusão de apresentações durante a festa.

7) Ô Mariaa – 1974 (f. 007 – l. A) [30:25- 31:05 ] fragmento [cad_div-23]

Em nome do pai e do filho

Ô Mariaa

E do Espírito Santo Amém

Ô Mariaa

O pai nosso que estais no céu

Ô Mariá

Santificado seja o vosso nome

Ô Mariaa

Venha nós o vosso reino

Ô Mariaa

Seja feita a vossa vontade

Ô Mariá

Assim na terra como no céu

O pão nosso de cada dia

Ô Mariaa

nos dai hoje e perdoai

Ô Mariaa

nossas dívidas de todo […]

Nota: Há outro registro, Ô Mariaa – 1977 (F.099 – l. A) [8:00 – 12:14], em que se gravou toda a reza cantada, mas a qualidade do registro foi prejudicada por interferências sonoras no contexto. Os versos seguintes aos que faltam acima concluem o Padre Nosso, seguem com adaptação de oração de louvor a Maria e terminam com versos de agradecimentos a todo do grupo e aos responsáveis pela festa.  Tanto as orações adaptadas à maneira dos responsos [Nota sobre responsos, citar MAndrade], quanto ao improviso final, demonstrando sua gratidão aos componentes do grupo revelam a cordialidade característica da cultura caipira.

[Selecionar ainda um trecho do “obrigado pela atenção” em que agradece a presença do tocador de parnanguame e outros.]
  • Sons e versos cantados das Congadas

Congada Mogiana Brasileira de migrantes, relacionada a terno de congo de Minas de São Gonçalo de Sapucaí, MG

Ô Virge Maria – 1972 (f.002 l.A) [11:30-15:10] [cad_div-24]

Ô Virge Maria

Ô Virge Senhora

Visitai os anjo

No reino da glória

Visitai os anjo

No reino da glória

Nossa Senhora das Dores

rainha dos anjos

coroada de flores

rainha dos anjos

coroada de flores

Ô Virge Maria…

Ô Virge Maria…

Ô Virge Maria…

Ô Virge Maria

Tem a paz e tem a luz

O rosário de Maria

O mistério de Jesus

Virge Maria!

Ô Virge Maria…

ô Virge senhora

Nossa senhora das Dores

Rainha dos anjos

Coroada de flores

Rainha dos anjos

Coroada de flores

Ô Virge Maria…

———–

desde o tempo do cativeiro

laçado pelo pé

São Benedito foi cozinheiro

Eh São Benedito!

Uma das integrantes dá informações e diz ”Esta festa esteve boa, esteve de deixar saudade!”

Naquela época, estava iniciando minhas leituras de João Guimarães Rosa, onde encontrei um eco desta frase na Festa de Manuelzão [Desenvolver]

Deus vos salve casa santa– 1972 (f.002 l.A) [23:10-28:50] [cad_div-25]

Deus vos salve casa santa

onde Deus fez a morada

Deus vos salve a casa santa

onde Deus fez a morada

onde mora o calix bento e a hóstia consagrada

onde mora o calix bento e a hóstia consagrada

[Na fita, faço a descrição da dança em volta do Mastro. Manter, se char bom]

Ai Divino – 1972 (f.002 l.A) [30:20-34:00] [cad_div-26]

Ai Divino

Divino da Eucaristia

Ai Divino

Divino da Eucaristia

São Pedro será meu mestre

e o Divino será minha guia

São Pedro será meu mestre

e o Divino será minha guia

– Congo de São Gonçalo de Sapucaí, Minas Gerais – 1974 (f. 005, l. A) [até 6:23] [cad_div-27]

Ô sabiá

Ô sabiá

tu é mais feliz que eu

Ô sabiá

invejo o destino seu

Ô sabiá

porque canta triste assim

Ô sabiá

deixa a tristeza pra mim

Quando eu vejo um sabiá

numa gaiola cantando

eu começo a relembrar

o tempo que eu vivi amando

aquela ingrata Maria

que roubou minha alegria

eu também vivia cantando

pois isso era o que eu queria

Salve a rainha e o rei  [cad_div-28]

Salve a rainha e o rei

Porque o rei tem coroa

Salve a rainha e o rei

Porque o rei tem coroa

O mistério de São Benedito

eu não deixo assim atoa

O mistério de São Benedito

eu não deixo assim atoa

Salve a rainha e o rei

Porque o rei tem coroa

Salve a rainha e o rei

Porque o rei tem coroa

Mas o meu coraçãozinho

Eu não entrego assim atoa

Mas o meu coraçãozinho

Eu não entrego assim atoa

– Congada de S. Benedito e N. Sra. do Rosário:

Nossa Senhora vem num barco – 1974 (f. 005, l. A) [6:23 – 9:02] [cad_div-29]

Nossa Senhora vem num barco

  1. José que tá remando

Nossa Senhora vem num barco

  1. José que tá remando

Levanta a bandeira de paz

  1. Benedito está mandando

Levanta a bandeira de paz

  1. Benedito está mandando

Ô linda baiana – 1974 (f. 005, l. A) [9:03 – 13:21] [cad_div-30]

– Ô linda baiana

– O que é meu bem                      Bis

– Como vai a nossa festa

– Ai vai indo muito bem

– Oi linda baiana, oi linda meu bem

– samba baiana, a saia dela é ouro em pó                 Bis

samba baiana

– Oi linda baiana

– O que é meu bem

– Como vai o nosso prefeito

– Ai vai indo muito bem

– Oi linda baiana

– O que é meu bem

– Como vai o nosso festeiro

– Ai vai indo muito bem

– Oi linda baiana, oi linda meu bem

– samba baiana, a saia dela é ouro em pó                 Bis

samba baiana

– Oi linda baiana

– O que é meu bem                                                   Bis

– Como vai as nossas crianças

– Ai vai indo muito bem                                            Bis

– Oi linda baiana, oi linda meu bem

– samba baiana, a saia dela é ouro em pó                 Bis

samba baiana

 

Avistei a cidade do Rio – 1974 (f. 005, l. A) [13:50 – 15:36] [cad_div-31]

Avistei a cidade do Rio

Avistei a cidade do Rio

Saio da barca e entrei no navio

Avistei a cidade do Rio

Saio da barca e entrei no navio

Ai vem navio – 1974 (f. 005, l. A) [15:37 – 19:30] [cad_div-32]

Ai vem navio/ ele vem serenando

aqui noutra canoa/ eu estou remando

cortando água/ cortando água

Olha lá que ele vem/ ele vem serenando

cortando água/ cortando água

Olha lá que ele/ vem ele vem serenando

[Falta completar o resto da transcrição]

Ô Laura – 1974 (f. 005, l. A) [19:31 – [cad_div-33]

Ô Laura ô Laura ô Laura

Ô Laura ô Laura ô Laura

Ô Laura

Volte pra casa pro meu coração sossegar

Volte pra casa pro meu coração sossegar

[Falta completar o resto da transcrição]

Chorei chorei  [cad_div-34] [Falta inserir a transcrição]

 

Andorinha dourada  [cad_div-35]

Andorinha dourada

andorinha dourada

Bate as asinha andorinha/ é de madrugada

bate as asinha andorinha/ é de madrugada

Viva meu S. Benedito [cad_div-36]

Viva meu S. Benedito

Viva nessa hora

Viva meu S. Benedito

Ele é o rei da glória

– Congada de Mestre Alcides (f.045 – l. A) [0:00-2:22] [cad_div-37]

Oi o meu coração tá doeno

Oi o meu coração tá doeno

tá doeno deixa doer                     Bis

tá doeno tá doeno

deixa doer

Tá doeno deixa doer                     Bis

tá doeno tá doeno

deixa doer

Oi o meu coração…

Meio dia tem moçambique – 1975 (f.045 – l. A) [2:22 -2:50] [cad_div-38]

Meio dia tem moçambique

duas horas tem cavaiada

cinco horas tem procissão

as seis vai ter missa cantada

 

Ó a poeira aí – 1975 (f.046 – l. A) [18:27 – 22:58] [cad_div-39]

Ó a poeira aí, morena

pisa devagar

Tem poeira aí, morena

pisa devagar

Que o meu sapato é branco

Morena

eu não quero escorregar

Nota: Esta canção tem um ritmo e melodia parecido com o do samba-lenço de Mauá;.há uma voz feminina parecida com a da Dona Chiquinha, da Vila das Palmeiras. No final, som de carro de boi

Agradecendo o almoço

[…]

To fazendo a despedida

com a dança do coração

quem tem lenço na campana?

quero ver agora na mão

A dança da despedida

é  dança do coração

A dança da despedida

é  dança do coração

Quem me ensinou a nadar – 1976 (f.045 – l. B) [6:15 – 8:35] [cad_div-40]

Quem me ensinou a nadar

foi os peixinho do mar                 Bis

foi foi foi foi marinheiro

foi os peixinho do mar                  Bis

 

Cai sereno cai devargazinho – 1976 (f.045 – l. B) [10:45 – 12:30] [cad_div-41]

Cai sereno cai devagarzinho

Cai sereno cai devagarzinho

Cai sereno pra molhar o meu caminho

Cai sereno pra molhar o meu caminho

– Congada de Biritiba Ussu

Glória a Deus que lhe ajude  – 1976 (f.049 – l. A) [0:00- 3:57] [cad_div-42]

Glória a Deus que lhe ajude

o festeiro

Quando o galo canta – 1976 (f.049 – l. A) [15:29 – 18:41] [cad_div-43]

Quando o galo canta

é de madrugada

saia na janela

sai nossa congada

Nota: continua com o som dos tambores em evolução e emenda com outro som de tambores

Explicação de Seu Conrado sobre o moçambique  – 1976 (f.049 – l. A) [13:00 – 14:20] [cad_div-44]

dança africana

– moçambique de??? – 1976 (f.049 – l. B) [15:32 – 17:18] [cad_div-45]

Piripiripiri

eu vi o canário cantá

ah eheheh ah

da licença pra nóis pelejá

– Marujada – Dico [Ver nome no cartaz] [cad_div-46]

Ê Virge Maria(f.099 – l.B) [11:16 –

Ê Virgee

Ê Virgee Maria

Rainha do Rosário

ela é a nossa guia

– 1978 (f.102 – l. A [0:00 – 6:00] [cad_div-47]

fim de canto de moçambique; o som de guizos emenda com o som da marujada

Abre a porta do céu

São Miguel

Venha arreceber

Traz a balança

E pesa essas alma

Quem for pecador

Vai aparecer

[13:00 –] [cad_div-48]

parte declamada –

segue outro ritmo

O rosário é meu [15:00 -][ cad_div-49]

O rosário é meu

o rosário é meu

foi pai de santo

quem me deu

Nota: som dos tambores por volta do 20:00 e continuando até [cad_div-50]

Rainha fulô

Rainha fulô

Rainha fulô

rainha de nosso Sinhô

Foliões do Divino cantam no Império do Divino– 1975 (f.045 – l. A) [26:50 – 28:40] [cad_div-51]

Que encontro tão bonito

nós tivemo nessa hora…….

 

A Festa do Divino de Mogi das Cruzes inaugura os registros etnográficos deste Acervo. As primeiras gravações datam de 1972 – são três fitas gravadas durante a festa. A primeira observação desta festa motivou novas idas a campo para gravar entrevista com Seu Conrado, mestre do Batalhão de Moçambique, e modas de viola, cantadas por integrantes deste grupo, antes da Festa do Divino de 1974. O convívio com integrantes do Batalhão de Moçambique de Seu Conrado nos levou a conhecer outras formas de expressão de que participavam ao longo do ano, como a Dança de São Gonçalo, a Dança de Santa Cruz, realizadas em pagamento de promessas.

Como se pode observar no Catálogo de Registros Sonoros, o conjunto das fitas 1 a 49 contém registros feitos em Mogi das Cruzes, bairros rurais, distritos e cidades vizinhas, de 1972 a 1975.

Em 1976, A Festa do Divino de Mogi das Cruzes é registrada desde os preparativos, dias antes da festa. Em 1977, foram gravadas as fitas 97 a 100, em 1978, só uma parte do Batalhão de Moçambique e da Marujada.

Como são muitas fitas, para amostragem, foi feita uma coletânea em 2 CDs contendo trechos  selecionados dos registros feitos entre 1972 e 1978 em Mogi das Cruzes. As vozes dos Foliões do Divino atravessam os CDs, como os cantos de Moçambique vão e voltam, criando recorrências e por fim cantos de congada, terminando com a Marujada de Seu José Isidoro e Dico, em que são fortes os tambores e o canto. Foram inseridos, em três faixas, os Foliões da Festa do Divino de Piracicaba para contraste. A última faixa, panorâmica, traz fragmentos de vários registros selecionados e de entrevistas, com o som da Marujada ao fundo.


Saiba mais acessando o texto multimídia:

Cadernetas do Divino


Catálogo de Registros Sonoros

Amostras

Coletânea:


Galeria de fotos: